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  • PEQUENAS HISTÓRIAS / Nege Além  
  • Código: 978-85-366-5061-6
  • Scortecci Editora - Contos - Formato 14 x 21 cm - 1ª edição - 2017 - 208 páginas

  • R$25,00
  • ESPELHOS E CONTRAESPELHOS DE UMA NOVELA HUMANÍSSIMA - Iniciando o comentário ao livro anterior de Nege Além – Histórias bancárias – afirmamos que o autor agradava de pronto pela unidade temática, não havendo desnível de qualidade nos contos que reunira de dois outros anteriores. Já aqui, nesta novela, os capítulos unem-se pelo assunto único, andamento narrativo, excelência literária em todos eles, com vislumbres de contos ou tópicos independentes que deixam entrever tal peças unidas e levemente soltas. Esta amostragem formal é curiosíssima, eis que os capítulos ligam-se pelo tema unitário e, ao mesmo passo, fogem um pouco dele, dada a grande economia de meios do autor ao construí-los. Neste ponto lembra um pouco – lembra, apenas – Mestre Machado de Assis, que na unidade notável dos seus melhores livros valeu-se da forma livre de criação de Sterne e Xavier de Maistre. Motivo pelo qual temos aqui uma obra a um tempo una e difusa. E, dentro deste aparato e jogo cênico criador, Nege Além trouxe ao vivo uma criação literária surpreendente. É a história do engraxate Dudu (Eduardo de Andrade), filho mais velho de uma família paupérrima e desvalida, numa cidade do interior de razoável nível social. Assunto que tem tudo para se banalizar, diante dos sofrimentos do pai doente, das aflições da miséria sem apelo que ronda o lar, e Dudu sem encontrar fugas ou meios que minorem um pouco isto. Banalizar-se porque vimos muitas histórias que assim se iniciam, com aparente força narrativa, para se perderem nas redundâncias sofredoras no andamento delas. Aqui, não. Aqui, nunca. As surpresas, inesperadas, e quantas vezes em amostragens rápidas, vão acontecendo através dos capítulos curtos, contidos, muito bem escritos, diálogos incisivos e oportunos, aprofundando, com isto, o psicológico ao correr do narrativo, o descritivo um tanto subjacente e elíptico. Tudo gira em torno de Dudu: a família, os amigos, as personagens simples e importantes da cidade, e a própria alma da cidade, sua paisagem urbana e arredores. O notável é que o descritivo disto tudo, ao correr da própria vida de Dudu, jovem engraxate de boa conduta e determinado a encontrar também um lugar ao sol. É apenas o essencial, mas exsurge ele por inteiro através da conduta de Dudu. O autor mais sugere do que descreve e deixa que a imaginação do leitor complete o quadro, numa curiosa, moderna e oportuna criação a dois: autor e leitor. Não é qualquer ficcionista capaz de assim proceder. Nege Além leva qualquer leitor a torcer vivamente por Dudu. Como dissemos, no andamento da história cada capítulo parece – enganosa aparência – um tanto descolado dela, soltos, abordando ações paralelas. Acontece que com isto desaparece uma perigosa mesmice redundante ao correr dos anos na vida da personagem e a obra se torna, como se tornou, poliédrica, com espelhos e contraespelhos curiosos. E tudo caminha para um final emocionante, que palpita no coração de qualquer leitor. Nege Além é escritor impressionista. As imagens vêm ao vivo de pronto. E Dudu é exemplo acabado de como vencer obstáculos pelos próprios meios, navegando entre pessoas bondosas e outras que são o reverso delas. Vida comum de um jovem de muita força interior. Mas nada de emblemático que resvale para o alambicado heroísmo. Isto é que é bonito. Isto é que palpita. O engraxate Dudu é criação humaníssima, do melhor nível literário. E inserida, sem favor, na arte moderna da ficção nacional.
    Caio Porfírio Carneiro - Ficcionista e crítico literário - Secretário administrativo da União Brasileira de Escritores

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